domingo, 26 de agosto de 2007

Corrupção do século 21 faz suas vítimas viverem no século 19



No Piauí, a Construtora Gautama deixou milhares de pessoas que esperavam o Luz para Todos desiludidas

O Estado de São Paulo na versão on-line do dia 27 de maio de 2007 publicou matéria muito importante sobre os efeitos da corrupção e materializa de forma dramática a cruz que carregfamos, especialemente os mais pobres entre os pobres.
O texto é do jornalista Eduardo Nunomura que com fatos comprova que a corrupção deixa nosso povo longe dos avanços do século XXI.


Segue abaixo o texto na íntegra:


Vítimas da corrupção têm nome e endereço, mas não contam com energia elétrica. Em planilhas fictícias, representam números de beneficiados pelo Programa Luz para Todos. Nas comunidades em que vivem, são brasileiros que já deveriam ter geladeira e TV funcionando, mas a Construtora Gautama não fez as obras que diz estar fazendo. Deixou a maioria no breu. E o que aflige esses milhares de piauienses é que, mais uma vez, a luz não chegue.A família de Isaías Cícero de Carvalho, de 57 anos, da comunidade Pau Pombo, município de Boa Hora, proseia sempre que escurece. Na semana passada, um assunto os inquietou como nunca. Descobriram-se personagens da Voz do Brasil, o programa de rádio que os informa sobre o resto do mundo. Ouviram que a empresa Gautama fraudava o Luz para Todos, que seu dono havia sido preso, que políticos estavam envolvidos, que eram vítimas de mais um caso de corrupção no País.“Soubemos que a solicitação dessa nossa energia foi roubada, 40 e poucos chefes eram para ser presos ou não vão presos e fica naquele papo”, diz Isaías. “É muita covardia uma empresa roubar de uma nação descaradamente.”Na casa de adobe, três lamparinas iluminam os seis cômodos. Isaías mora com a mulher e cinco netos. Os dois sonham com a energia que nunca chega. Ele quer uma geladeira, mas ela prefere uma TV. “Quando estou em Teresina, vou dormir já tarde, com os olhos secos na televisão e meus irmãos mangando de mim”, brinca Maria de Lourdes, de 57 anos.No passado, usava-se querosene nos candeeiros. Não dá mais. O litro custa R$ 4 e dura oito dias. O óleo diesel sai mais em conta: R$ 1,99 por litro para duas semanas. Mas o diesel queimado fede, solta uma fumaça preta, irrita os olhos. Melhor ficar conversando do lado de fora da casa e só entrar para dormir, lá pelas 9 da noite. O jantar tem de ser por volta das 17 horas, quando ainda tem luz.A energia elétrica teria muitos mais significados para a comunidade de Pau Pombo. A bomba d’água que abastece 38 casas às vezes fica parada por falta de óleo diesel. As crianças poderiam ter uma creche. Na época da colheita do caju, a fruta viraria doces e sucos. Hoje só se aproveita a castanha. Um quilo vendido a R$ 0,50. O resto da fruta é jogado fora, assim como o peixe, a carne, as verduras, porque não há geladeira.É o Brasil do século 19 insistindo em sobreviver no século 21. O bisavô de Isaías, Pedro José de Souza, que formou a comunidade, viveu até os 106 anos. O avô, Justino Carvalho da Cunha, chegou à mesma idade. Seu pai, Cícero Carvalho Cunha, morreu aos 87. “E nunca no mundo teve energia aqui, moço. Já morreram os mais velhos que foram enganados.”A Construtora Gautama informou que na cidade de Boa Hora as obras para ligar 105 pontos de luz começaram em 27 de abril e já consumiram R$ 22 mil a mais do que os R$ 267 mil previstos no contrato assinado com a Companhia Energética do Piauí (Cepisa). Mas nas comunidades de Pau Pombo, Pitombeira e Barra do Brejo não há um único poste erguido. Só tocos numerados foram deixados no caminho pelos técnicos. O de Isaías é o de número 79.Em março deste ano, um morador de Barra do Brejo aceitou o serviço de capinar o mato para a empresa. Juntou mão-de-obra e abriu o caminho de mais de mil metros e 12 de largura por onde passariam os postes. Levou calote, de R$ 150. Na mesma época, Dimas Veras, irmão do dono da Gautama, Zuleido Soares Veras, tinha outras preocupações: “Eu vou procurar uma fórmula de a gente faturar os projetos, que a gente tem mil quilômetros de projeto lá feito... e os postes não estão no canteiro”, segundo escutas obtidas pela Polícia Federal (PF).A Gautama foi contratada pela Cepisa numa concorrência considerada fraudulenta pela PF. O edital teria sido elaborado por membros da estatal federal e da construtora. Em dois contratos de dezembro, de R$ 61 milhões, a empresa se tornou responsável por fazer 15.850 ligações do Luz para Todos em 14 meses. Desde que a Operação Navalha desbaratou a ação da quadrilha, a fábrica de postes da construtora em Teresina parou de funcionar, assim como todas as obras que estavam sendo tocadas. A Controladoria-Geral da União investiga falhas na licitação.EM TEMPOSorte tiveram 60 famílias no município de Jardim Mulato. A luz chegou na quarta-feira, dia 16, 24 horas antes da Operação Navalha. “Liguei a televisão e vimos o noticiário. Ainda bem que a nossa energia já tinha chegado”, alegra-se a presidente da associação de assentados, Eva Maria Pereira de Carvalho Silva. Há três anos, quando o Incra decidiu criar o Assentamento Ouro Verde, os moradores que se mudaram para lá encontraram uma casa bem feitinha, de cinco cômodos, mas sem água ou eletricidade.“Íamos direto na Cepisa ficar ‘avivando’, e mesmo assim a luz não chegava”, lembra Eva. TV, DVD, geladeira, aparelho de som, ventilador, tudo ia sendo comprado e amontoado pelos cantos da casa. Quem podia ia até a cidade tomar contato com a realidade. Muitos ficavam na escuridão do assentamento. A casa de Eva era um ponto de encontro. Não é mais. Cada um fica na sua moradia, vendo TV.Numa outra cidade piauiense, Campo Maior, Antonia Martins, de 64 anos, continua na escuridão. E não por falta de reclamação. Quando pode, ela vai até “o Arnaldo Ribeiro”, da Rádio 100, pedir a ele para “botar a boca no trombone”. Ela quer luz, há 50 anos pede isso. “Não tenho precisão de água gelada, não gosto, mas para guardar carne, peixe, fazer um suco, a gente precisa. É uma luz para alumiar a nossa vida.” A comunidade de Coqueiro, onde ela mora, já deveria ter vestígios de obras da Gautama. Assim como em São Bernardo e na Baixa dos Touros. O contrato previa 40 ligações elétricas, mas nem a marcação dos postes foi feita.Segundo planilha da construtora do início de maio, a Gautama executava obras para 1.100 consumidores. Já deveriam ter feito 396 ligações, mas apenas 132 foram entregues.“Uma comadre me perguntou se já chegou a luz santa. Eu respondi que não. Nem a santa, nem a do diabo”, reclama Antonia Martins. Com alguns dias de atraso, soube que o presidente da Cepisa, Jorge Targa Juni, havia sido preso. “Gastam dinheiro do nosso, porque o deles não mexem”, diz, para em seguida se arrepender do que falou. Tem medo de ser perseguida.ISOLADOSNa casa iluminada por três lamparinas, Antonia viu seus 11 filhos vivos irem embora aos poucos. Restaram só dois, Sávio e Saulo, mais um sobrinho, todos já adultos. Estes não partiram para cuidar dela. Antes se distraíam assistindo TV alimentada com bateria de caminhão. Quando esta arriava, Sávio tinha de ir até a cidade de Cocal da Telha para recarregá-la, 20 quilos na garupa da bicicleta. Encostaram o aparelho. Agora, se querem ver o futebol, precisam ir até Sambaíba, uma comunidade a dez minutos que já tem energia elétrica.No universo de Antonia Martins e outros moradores de Boa Hora, a escuridão esconde outros perigos. Um deles é o de facilitar a vida de ladrões de documentos. Nas redondezas, há casos de pessoas que viram seus nomes serem usados como laranjas. É em comunidades pobres que eles atuam. Na dúvida, ela decidiu esconder bem longe de sua casa escura o RG, o CPF e o título eleitoral. Se já é difícil viver sem luz, imagine na penumbra da criminalidade.


Um comentário:

Teresa Cristina Matos disse...

A corrupção é uma praga! Que pena que o Brasil e o Piauí estão infestados por ela. Que bom que O Movimento Força Tarefa Popular existe no Piauí e atua no combate dessa praga. Melhor será quando resultar do trabalho da Força Tarefa Popular a lisura no uso dos recursos públicos e a melhoria de vida de quem é mais vitimado pela corrupção: os isaias e marias de comunidades pobres do nosso País.
Ciente disto, pretendo divulgar o Movimento durante a III Jornada Internacional de Políticas Públicas que acontecerá na Universidade Federal do Maranhão, no período de 28 a 30 de agosto de 2007. Serve de exemplo para outros estados e para outros paises!

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